Ordem dos Frades Menores Conventuais

Artigos, Formação › 23/02/2020

ASPECTOS DA VIDA FRATERNA FRANCISCANA

Daniel Silbernagel – OFS Petrópolis

A vida fraterna é um dos traços fundamentais do carisma franciscano. Segundo São Francisco de Assis, o que caracteriza essencialmente a vida de seus seguidores e suas seguidoras é a vida em Fraternidade, é ser irmãos e irmãs. Daqui deriva tudo o que devemos ser: irmãos que convivem e fazem vida em comum, irmãos que vão pelo mundo como “menores” (OFM) e itinerantes como “seculares” (OFS) que fazem do mundo o seu “convento”. Os franciscanos menores e seculares são irmãos que rezam,que trabalham, irmãos que são enviados em missão e evangelizam. A originalidade de São Francisco acerca da Fraternidade consiste na compreensão da sua profundidade e amplitude, da sua centralidade no Evangelho e no seguimento de Jesus Cristo, pobre, humilde e casto. De encontro a essa realidade “os franciscanos seculares se empenhem, sobretudo na leitura assídua do Evangelho, passando do Evangelho à vida e da vida ao Evangelho” (Regra OFS n° 4).Francisco leva a sério e vive em profundidade a palavra de Jesus: “um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos e um só é o vosso Pai” (Mt 23,8-9).  E transformou a Fraternidade numa forma de vida, num estilo e num modo de viver e conviver, de ser e agir, de relacionar-se com Deus, com os outros, com as outras e com todas as realidades. Até a própria morte é vista por Francisco como irmã.

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Os primeiros seguidores de Francisco viviam de fato como “frades-irmãos” porque neles se manifestava um ardente amor fraterno. Quando se encontravam, havia uma verdadeira explosão de afeto espiritual. Eram imunes a qualquer amor egoístico. “Mostravam-se felizes quando podiam reunir-se, mais felizes quando estavam juntos”.(1Cel 38-39).E eram frades e irmãos menores porque, segundo o primeiro biógrafo Tomás de Celano, viviam submissos a todos e porque “sempre procuravam o pior lugar e queriam exercer o ofício em que pudesse haver alguma desonra, para merecerem ser colocados sobre a base sólida da humildade verdadeira e neles pudesse crescer auspiciosamente a construção espiritual de todas as virtudes”. (Cf. 1Cel 39);

Nos seus escritos, São Francisco usa 306 vezes a palavra “irmão”. Esse número só é superado pelo uso da palavra Senhor” que aparece 410 vezes. Francisco dá a si mesmo 15 vezes o nome de irmão. O termo Fraternidade é usado 10 vezes por Francisco nos seus escritos. Portanto, Francisco ao se referir à Fraternidade pensa em irmãos concretos. Podemos afirmar que o ser irmãos, sejam estes menores ou leigos (seculares)é o coração do carisma franciscano. Ao mesmo tempo, devemos afirmar que a Fraternidade franciscana é formada por pessoas concretas, com sua realidade pessoal, com seus dons e suas fragilidades, com suas luzes e sombras que procuram viver um projeto de vida evangélico no seguimento de Jesus Cristo. Francisco, mais do que referir-se à Fraternidade, se refere sempre aos irmãos. Considera cada irmão como dom do Senhor. Contempla com admiração o Irmão Jesus Cristo pobre, humilde e casto. “Oh, como é santo e aprazível, humilde, pacífico, doce e mais que tudo desejável ter um tal irmão e filho (1Cel 38-39). Encarnando-se e oferecendo-se a nós, Cristo se fez irmão, um de nós. Esta proximidade fraterna de Jesus Cristo à pessoa humana é para Francisco motivo e razão de sua opção pela Fraternidade. O Irmão Menor Jesus Cristo, Mestre e Senhor, lavou os pés dos seus discípulos e deixou nos deixou esse legado como mandamento: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós, deveis amar-vos uns aos outros”(cf. Jo 15, 12).Os irmãos e irmãs que Francisco foi recebendo eram de uma diversidade extraordinária, pessoas simples e pessoasinstruídas, clérigos e leigos, de diferentes camadas sociais. A Fraternidade vivida foi o autêntico valor evangélico que conseguiu unificar a pluralidade de proveniências dos candidatos.

Resultado de imagem para ASPECTOS DA VIDA FRATERNA FRANCISCANATodos indistintamente, nobres e plebeus, ricos e pobres, clérigos e leigos, onde quer que estivessem e se encontrassem, deviam mostrar-se “irmãos”, familiares entre eles, tratando-se com plena confiança e se querendo bem, com amor mais que materno, devendo fugir de qualquer espírito de julgamento legalista (Rb 6, 8s; Rnb9,13s).A partir dessa consciência de que a Fraternidade tem origem Divina e é um dom dado pelo Deus Altíssimo, reconheçamos que somos filhos do mesmo Pai e irmãos entre nós. Daí que Francisco reconhece a Fraternidade como um valor evangélico, um valor do Reino de Deus a ser testemunhado, a ser reconhecido, anunciado, comunicado de todas as formas possíveis ao conjunto das relações da nossa existência humana, eclesial, social, cósmica. É um tesouro que carregamos conosco a perpassar todas as nossas relações e nossos serviços, nossos engajamentos e nossos sonhos: é elemento constitutivo de nossa missão na Igreja e no mundo e em nossa Ordem.Por isso, amemos nossas Fraternidades e a nossos irmãos e irmãs com verdadeiro afeto filial e saibamos que jamais estaremos acima de nossas Fraternidades e que fujamos de todo espírito de divisão e julgamento e que sejamos sempre o verdadeiro Evangelho que nosso irmão possa ler e testemunhar diante desse mundo que cada vez mais perde os verdadeiros valores éticos e morais. Tudo isso só será possível, se cada um de nós, verdadeiros irmãos franciscanos, não perdermos o ponto de partida que tanto nos fala e recomenda nossa Mãe Clara, e que é nosso maior tesouro e identidade nos deixada por Cristo, nosso Irmão Menor, que é a nossa amada Fraternidade.

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