Artigos, Destaques › 10/01/2019

DEUS NÃO É INDIFERENTE COM O SOFRIMENTO HUMANO

O Livro de Jó coloca um problema universal: o sofrimento do inocente e a prosperidade do ímpio. O autor do livro é situado na terra de Hus a sul de Edon. Hus é a terra dos árabes. O livro é escrito no pós-exílio em pleno século IV. Este período é marcado por desigualdades sociais, rejeição dos samaritanos, legalismo, expulsão das mulheres estrangeiras e pela centralização do Templo. É o período do império persa. Jó era um sábio do oriente e não judeu. Sua sabedoria se destaca pelo modo como utiliza de questões filosóficas e teológicas para compreender o problema proposto. Jó é um sábio culto, erudito que com muita fineza sabe apresentar o problema no qual quer propor uma reflexão.

Jó aborda um problema que muito questiona a todos: o sofrimento do inocente que, sem ter cometido pecado nenhum, sofre tanto. Quando alguém sofria por que tinha cometido uma falta, o sofrimento era compreensível. Nesta época era muito comum a mentalidade chamada de teologia da retribuição, isto é, todo sofrimento tem como causa o pecado.

O presente livro tem uma questão literária importante: antes do livro ser escrito, havia uma lenda a respeito de Jó. Esta lenda aparece no início (prólogo) e no final do livro (epílogo). O autor introduz dentro do livro um diálogo entre Jó e seus amigos. O autor complica o raciocínio a respeito da teologia da retribuição. Aqui é nítido que essa teologia da retribuição não é satisfatória para responder o problema proposto. Cada interlocutor vai se expressar enfatizando que o sofrimento é consequência do pecado. Mas Jó continua firme em sua convicção na qual não faz sentido o justo sofrer se não cometeu pecado algum. Assim, aparece um quarto amigo com uma nova concepção de teologia: o sofrimento é algo do qual se pode apreender um bem. No entanto, Jó permanece firme em sua posição: “sou inocente”. Deus aparece a Jó no seio da tempestade e fala de sua majestade como criador de todas as coisas. Jó é questionado e repreendido por Deus por querer conhecer coisas que não se tem acesso. Ao reconhecer seu erro, Jó é interpelado por Deus. Após repreendê-lo, Deus vai afirmar que Jó estava certo e seus amigos errados. Na verdade ninguém é culpado: nem Deus e nem Jó. O castigo de Deus é um mistério. O que conforta Jó é saber que Deus está ao lado daquele que sofre.

Portanto, o Livro de Jó é um escrito de uma beleza reflexiva formidável, no qual o leitor pode apreender dele caminhos que o levem a conhecer melhor qual o sentido do sofrimento na vida do justo. Com o Novo Testamento a compreensão do sofrimento é mais fácil. Todavia, quando o Livro de Jó foi escrito, entender o sofrimento do justo e a felicidade do ímpio não era tarefa fácil de resolver. Facilmente se apelava para a teologia da retribuição como fizeram os amigos de Jó. A mensagem deixada pelo Livro de Jó convida a perseverança na fé. Jó, mesmo nada entendendo do que estava acontecendo com ele, não deixou um só instante de ser fiel a Deus.

Esta fidelidade convida a não desanimar diante dos sofrimentos. Pois, Deus está presente com aquele que sofre, no qual não é indiferente para com o sofrimento de toda pessoa humana.

Frei Willian Gomes Mendonça, OFMConv.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

  1. L. Sicre Diaz/Luís Alonso Schokel. Profetas II. São Paulo, Paulus, 2001.

 

 

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